quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Prenúncios e Posfácios - Seis.


Sou meio chato demais com algumas coisas, e o ritmo da vida universitária do pessoal daqui (festas em república, cervejada) não me cativou por muito tempo não. 
Sou, também, um grande apreciador do rolê, do rolê que eu gosto, e, de fato, essas festas e "cervejadas" universitárias nem de longe abraçam esses meus gostos: a música não é o elemento central desses rolês. Fui numas e noutras, e aquilo tudo me cansou, sobretudo no primeiro e segundo ano.

Já no começo do meu primeiro ano em Marília ouvi falar de um tal "Cão Pererê" - um nome assaz esquisito para um bar , eu pensava - ele estava passando por umas obras e reabriria em breve, o que ocorreu em novembro de 2008. Lembro que o primeiro rolê que eu fui lá era uma noite de Jazz, com o grupo Panela de Expressão, e, logo em seguida, na última sexta feira do ano aqui em Marília, rolou minha primeira noite insana de roque lá: uma bandinha couver de oasis e show do Partido dos Poetas Pobres (lembro-me que nesta noite conheci os tais "discos voadores") no porão do Cão (quem viu show lá sabe que se tratava de um espírito de roque único).
Em 2009, lá pro fim do ano, eu já nem queria saber de festa universitária, só ia no Cão. Morava desde o começo do ano a três quarteirões dele, e, pouco a pouco, aquele lugar foi se tornando o meu principal local de lazer aqui na cidade. 
Nessa época, o segundo ano de faculdade, fiz até um trabalho de campo, para uma disciplina de "método de pesquisa em ciências sociais" tendo o Cão como local para pesquisa.
Gloriosas noites de samba, forró, discotecagens diversas, jazz, roque, intervenções teatrais, foram me aproximando mais da casa e me mostrando bandas e estilos que eu não conhecia. Aliás, conhecer banda, gente de banda, gente que gosta de banda, foi o que tornou esse lugar tão especial pra mim.
Depois, em 2010, comecei a trabalhar lá, vez ou outra, na portaria ou no bar. Em 2011 comprei uma câmera legal e comecei a fotografar todo santo rolê, toda santa banda. 
Ainda em 2011, e depois em 2012, com o Coletivo Desdobra, essa rotina se intensificou, tanto a do Cão como a minha casa de lazer, quanto como um local de "trabalho" - e organizar shows, aproximar pessoas, bandas etc, é um árduo trabalho, que vai além de qualquer recompensa financeira.

Em 2013 a porta do número 99 da Av. da Saudade fechou: o Cão ia mudar de endereço, e eu fui lá, ajudar na mudança. Pouco a pouco vi um lugar que não tinha nem luz, palco ou cara, se transformar no Cão de hoje, e dos próximos anos: com luzes coloridas, um palco excelente e aquela boa identidade de lugar alternativo. (Sempre que vou lá, dedico alguns instantes a olhar em volta, a lembrar das tardes e noites em que dei uma força, pintando uma parede, raspando cimento do chão, ajudando a moldar o isolamento acústico do palco; frequentar o Cão me formou bastante, me apresentou muita gente, e, nada mais justo, do que ajudar a reformar o Cão, a ser um lugar pra gente encontrar gente). 

Fomos, aliás, o Zababô Zebrinha, a primeira banda a tocar no palco novo do novo Pererê. Fomos, aliás, o Zababô Zebrinha, uma banda que só pode existir por que ensaiávamos no Cão Pererê e tínhamos total apoio de lá. 
E foi, aliás, graças ao entusiasmo da casa pra formar bandas novas, que, em 2010, eu lembrei que gostava de tocar, e foi lá também onde ensaiei com a Renata e mostramos ao público (apenas por duas vezes) as músicas do CabouTchan, em 2011. 
Foi lá também que eu conheci os meninos d'Os Rélpis, do Nullius Avarus, do Topsyturvy, do Vitrola Vil, do Me Gusta Los Panchos, do Immortuos, do Barbarosa, do Almighty Devildogs, do Vento na Cara, do Problema InCorre, o Felipe Ricotta e tantas outras bandas presentes nas minhas playlists cotidianas.

Me perco nas memórias sobre o Cão Pererê. Um tanto por que "ir lá" se tornou mais uma rotina, do que um evento, algo esporádico. E outro tanto por que, em geral, foram muitas as vezes em que sai de lá com a chave da memória (e do cérebro) já meio desligadas, o que é bom também. 

Chamar de "bar" ou "casa de shows" é reducionista e simplista. O Cão Pererê é muito mais que um lugar que vende bebidas enquanto você curte uma banda ou um som. É uma casa que abre as portas numa terça feira a noite pra sua banda ensaiar, é um lugar que abre as portas numa tarde de sábado pro pessoal das bandas se reunir e tentar se organizar, montar uma 'cena de bandas independentes'. 
O Cão Pererê (se me permitem finalizar este texto com um apelo individual) é o lugar em que eu mais gostei de estar para me divertir em Marília - fosse na Avenida da Saudade ou na Rua Alcides Lajes, fosse com shows excepcionais e a casa lotada ou, simplesmente, tomando uma cerveja com o Andrey e a Dani esperando a tinta da porta de alumínio secar.

Como disse noutra postagem dessa série: "a memória é uma xícara pequena, e não cabem nela todas as pessoas - as fotos ajudam, claro, a lembrar de diversos momentos". Por isso, dei uma volta rápida em álbuns no facebook pra recordar de alguns grandes momentos nos dois endereços do Cão Pererê: 


[Aqui tocando com a Renata, pelo CabouTchan, em Junho de 2011].

[Aqui o Vitrola Vil, em Maio de 2011].

[Aqui eu e o Blanka na hora do torrone].

[Aqui o Nullius Avarus, em Abril de 2011].

[Aqui Os Rélpis, em Abril de 2011].

[Aqui eu dormindo no porão do Cão, no fim da Cola Aqui, em Junho de 2011].

[Aqui o Dj Jundi, em Março de 2012].

[Noites insanas no Cão Pererê com a Mariângela, em Março de 2012].

[Aqui os moleque da Barbarosa [e sua Crew] no Grito Rock de 2013, em Março daquele ano].

[Aqui a saudosa esquina, número 99 da Av. da Saudade, em uma de suas últimas noites aberta, em Março de 2013].

[Aqui o Jabah, do Immortuos, mostrando como é que se faz, em Março de 2013].

[Aqui o Zababô Zebrinha, no Grito Rock de 2013].

[Aqui o lendário Partido dos Poetas Pobres, em Outubro de 2013].

[Noites insanas no Cão Pererê com a Beatrisse].

[Cão Pererê cheio, em Novembro de 2013].
[Zababô Zebrinha e Me Gusta Los Panchos no camarim do Cão, em dezembro de 2013. No Split que lançamos juntos ano passado, o agradecimento único é aos amigos e ao Cão Pererê, essencial pras duas bandas].

[Aqui o último show da história do Zababô Zebrinha [até hoje], em dezembro de 2013].

[Aqui o Andrey e Dani, chefe & chefa, que mantém o Cão pulsando na cidade].

Nenhum comentário: